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E A PAIXÃO... O VENTO LEVOU!


Data: 11/01/2008

Acompanhei de perto a febre mundial do filme “A Paixão de Cristo” do “São Mel Gibson”.

Os comentários e os testemunhos que chegaram de além mar eram os mais animadores e promissores possíveis.

Por aqui (África do Sul) ouvi de tudo. Pessoas morrendo, outras sendo curadas... Ouvi até comentários que o Gibson havia se convertido, tinha tido uma visão, o ator principal era pentecostal e havia recebido uma profecia...

Uma missionária que passou por aqui estava tão empolgada com o “São Gibson” que chegou a afirmar que mesmo se ele não fosse convertido, certamente Deus iria levar em conta esta grande “obra” e daria uma colher de chá para o santo cineasta.

A verdade é que aos montes vimos pessoas chorando, “tocadas” e fazendo promessas de mudar de vida. Pessoas procurando as igrejas para acertar suas dívidas com Deus e aplacar suas consciências acusadas.

Tudo parecia muito lindo e perfeito!

Aqui mesmo onde ajudo a pastorear uma comunidade de batistas, fui procurado por alguém que assistiu ao filme e queria retomar sua “vida religiosa”. Numa boa conversa diagnóstica, descobri que nada havia entendido quanto a real natureza e necessidade da salvação.

Depois de duas semanas, virou fumaça... você a viu por ai? Eu também não.

Descobri que tanto aqui quanto em outros lugares, aos montes os “tocados” foram também sendo “destocados” na mesma velocidade com que foram “tocados”. A emoção das cenas chocantes passou e novamente a atração pelo pecado foi vencendo e o verdadeiro Jesus nunca chegou nem a nascer ou se quer conhecer estes “filhos da paixão de Gibson”.

Na verdade para muitos deles, a tal comoção era apenas o tal remorso que muito se parece com o arrependimento, mas que não basta para a salvação de pecadores.

O tal Gibson, coitado, fez o que pode: Como bom profissional, acercou-se de tudo o que podia para dar a devida qualidade que agrada aos olhos dos exigentes e aos críticos de plantão.

Como bom Católico Romano não deixou de dar as devidas ênfases que agrada em cheio as convicções e emoções católicas, tais como:

a) A ênfase no sofrimento físico de Jesus, em detrimento da ênfase bíblica que é o sofrimento espiritual causado pelo peso do pecado do mundo inteiro que ele levou sobre si. (Isaias 53.5. “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”);

b) A ênfase no papel de Maria, que aparece como a fonte inspiradora de onde Jesus arranca forças para ir até ao fim da sua missão;

c) A ênfase nas tradições extra-bíblicas que é comum aos católicos, ao mostrar a cena que é o ponto alto nas comemorações católicas da “sexta-feira da paixão”: A cena da tal Verônica que teria enxugado o rosto de Jesus no seu trajeto até ao Gólgota.

Mas, Mr. Gibson também é humano, coitado! Como “bom pecador” que é, não deixou de dar o seu melhor para engordar a sua conta bancária em alguns milhares de dólares. Foi perfeito em seu marketing: agradou católicos e “evangélicos” e provocou aquela “polêmicazinha” com os Judeus para adicionar o sal da curiosidade que leva pessoas ao cinema. Contudo, teve muita cautela para não irritá-los muito e não hesitou em retirar “algumas páginas da bíblia” ao cortar cenas onde, por exemplo, os Judeus pedem para que o Seu sangue caia sobre eles e os seus filhos.

Contudo, o que mais me preocupa em meio a tudo isto é o rumo que os “crentes” estão dando a certos valores vitais da palavra de Deus.

É estarrecedor ver pastores e igrejas se apegando ao filme como se fosse sua tábua de salvação quanto à evangelização. Lógico que esta não é a primeira vez que isto acontece e possivelmente não será a última.

Grandes autoridades eclesiásticas chegaram até a afirmar que “o filme está fazendo o que as missões modernas levariam mais de 200 anos para fazer e que, agora sim, a igreja tem uma ferramenta poderosa para evangelizar”. Isto seria cômico se não fosse trágico!

Se admitirmos que isto seja verdade, então pelo menos deveríamos admitir que as “Pedras estão clamando” e a “Mula de Balaão está falando”.

A impressão que estou tendo é que Deus enviou algum anjo para informar aos crentes que tudo o que Ele nos orientou acerca de gerar novos crentes, está ultrapassado e devemos esquecer.

O anjo ainda parece informar que Deus, que antes havia negado este serviço de evangelização aos anjos tornando-o exclusivo para os homens, agora retrocedeu ao moderníssimo método de Mel Gibson. Honestamente, mesmo que um anjo houvesse trazido tal mensagem, eu preferiria aceitar o conselho de Paulo que disse: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema”. (Gl 1:8)

Por que será que é tão difícil viver o que foi ensinado por Jesus? Por que temos que nos agarrar a estas moletas e bordões de cana quebrada? Quase chego a ouvir o eco das palavras do salmista a nos lembrar que “Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus”. (Sl 20:7)

Qual foi mesmo a única ferramenta que Jesus USOU e nos ORDENOU para gerar novos crentes?

Você disse DISCIPULADO? A C E R T O U!

Mas, será que existe algum pastor ou crente que não saiba disto? Por que será que a igreja insiste em deturpar ou fugir da ordem de Jesus? Qual é o problema com muitos crentes infrutíferos que se agarram a estes subterfúgios? Não seria mais simples obedecer e fazer como Jesus mandou? Qual é a dificuldade?

Segundo o texto áureo do DISCIPULADO em Mateus 28.18-20, a palavra chave é “FAZEI discípulos”.

Mais tarde, Jesus interpreta este processo para Paulo dizendo: “.... agora te envio, para lhes abrires os olhos e das trevas os converteres à luz e do poder de Satanás a Deus, a fim de que recebam a remissão dos pecados e sorte entre os santificados pela fé em mim”. (Actos 26.17,18).

À luz disto podemos deduzir que DISCIPULADO é um processo contínuo, crescente e intencional que um discípulo de Jesus desenvolve com um não-discípulo, tirando-o das trevas e transportando-o para a luz; libertando-o do poder de Satanás e submetendo-o a Deus e dando-lhe um lugar entre os santos.

Mas, para fazer isto é necessário algumas habilidades com Elementos Básicos do DISCIPULADO, tais como: Amizade saudável, As Escrituras, Testemunho Pessoal, Tempo, Dedicação ...

Infelizmente, para muitos “A PAIXÃO DE CRISTO” é mais interessante como proposta de evangelização do que este tal DISCIPULADO, pois, não é preciso pagar todo este preço.

Basta dar o “ticket de entrada” do cinema e torcer para que o método do “São Gibson” substitua toda esta “trabalheira” que o discipulado dá.

E o resultado que tristemente observamos é que

“A PAIXÃO... O VENTO LEVOU!”


PARA REFLETIR:

1. Primeiro leia 2 Samuel 6 e depois veja este comentário da Bíblia de Scofield:

“A história da carroça nova de Davi e os seus resultados é uma ilustração impressionante da verdade espiritual, que mostra, que as bênçãos não seguem naturalmente, mesmo às melhores intenções no serviço de Deus, exceto quando este serviço é prestado do jeito que Deus quer. Deus dera orientação explicita sobre como a arca deveria ser transportada (Nm 4.1-15), mas Davi adotou um expediente filisteu” (1 Samuel 6.7-8).

Até onde não estamos repetindo a história da “Carroça Nova” de Davi?

2. Deus não usa coisas ou objetos para demonstrar o seu amor ao pecador. Ele escolheu e determinou que sua estratégia é PESSOAS. Deus não unge métodos, ferramentas ou filmes. Ele unge homens!

3. Como isto altera sua prática de evangelísmo pessoal?

J. Müller
– Missionário da PIB do Recife, coordena o ACTOS Ministry com sede em África do Sul.


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